Estudo aponta que desordens bucais afetam também nosso emocional

Juliana Damasceno
As experiências, ao contrário do que imaginamos, não passam apenas pela questão estética – vão muito além do que pensamos. Autoestima está diretamente relacionada a uma boa condição dentária.

Exceto se você for um dentista profissional, protético ou esteja diretamente ligado a serviços odontológicos quaisquer, certamente nunca ouviu falar em Oral Health Impact Profile (OHIP).

Na verdade, essa sigla que parece complicada é um indicativo bastante importante nas nossas vidas: ela é um índice que aponta o impacto das chamadas desordens bucais associadas à qualidade de vida dos indivíduos, no mundo inteiro.

Ele foi desenvolvido por pesquisadores australianos e tem revelado, infelizmente, que a grande população dos nossos centros urbanos – especialmente os chamados “edentados”, ou aqueles que não possuem alguns de seus dentes – sofrem graves danos emocionais e econômicos, por conta da falta de atendimento odontológico adequado. E estes resultados também se referem ao Brasil.

Outro aspecto bastante importante no estudo é o constrangimento social pelo qual passam estas pessoas – e este fator é ainda mais grave nos residentes nas cidades do que nas áreas rurais do país. E este cerceamento, esta impossibilidade permeia não somente o sonho do sorriso bonito, mas também condições emocionais, sociais e econômicas dos cidadãos.

Os resultados desta pesquisa foram divulgados esta semana pelo Instituto Bibancos de Odontologia, que adotou no Brasil uma versão mais compacta do OHIP, baseada em 14 diferentes itens para avaliar as condições de saúde bucal percebidas pelo paciente, focando em sua qualidade de vida.

“O aspecto estético ou funcional varia de pessoa para pessoa, dependendo da condição de cada um. O alto impacto é uma percepção individual e, ao mesmo tempo, uma construção social que atinge todas as classes sociais. Já tive experiências na Amazônia, aplicando o OHIP, entre as quais havia pessoas sem dentes, mas que não sofriam o impacto emocional gerado pela condição de desdentado. Para o tipo de alimentação e para a sociedade na qual essas pessoas vivem – na comunidade ribeirinha – estar sem dentes não implica em exclusão social. Em contrapartida, para um conhecido e talentoso ator paulistano, a chance de protagonizar uma novela só veio após resolver problemas estéticos na arcada dentária. Ou seja, o impacto na vida, carreira e condição financeira passou também pela correção do problema ortodôntico”.

Para o especialista, as experiências, ao contrário do que imaginamos, não passam apenas pela questão estética – vão muito além do que pensamos. “Muitas vezes, a pessoa deixa de comer um alimento não por incapacidade no maxilar, mas por constrangimento social perante outras pessoas. O medo do dente cair não a deixa, por exemplo, comer maçã”, afirma ele, acrescentando que o desdentado corrige o problema com uma prótese. Já o edentado sofre dores constantes e demanda um atendimento odontológico que é ineficiente ou inexistente dentro do serviço público de saúde.

O criador da OSCIP Turma do Bem defende que ter acesso a dentistas é um sonho de milhões de brasileiros, não apenas pela dimensão da saúde e da possibilidade de ascensão social (empregabilidade e educação), mas principalmente pela questão emocional.

Para se ter uma ideia, segundo dados do Conselho Federal de Odontologia de 2014, apesar de toda a acessibilidade e democratização da informação, cerca de 20 milhões de brasileiros ainda não têm acesso a dentista.

Ele inclusive conta uma história muito curiosa que viveu, durante uma orientação de trabalho direcionado com encarcerados.

“Quando orientei a pesquisa de um dos meus alunos, realizada no serviço odontológico de um centro de detenção paulistano, comprovei minha tese sobre a importância dos dentes na vida socioemocional. As chamadas enviadas ao serviço falavam de dor e da urgência por um dentista. Quando a súplica era finalmente atendida, o especialista notava que, na verdade, não havia nenhuma dor física envolvida – o detento queria simplesmente colar o dente da frente por um motivo muito especial: estava para receber a visita da companheira”.

Segundo Bibancos, é um grande um equívoco pensar que esse problema atinge somente a baixa renda. “Na prática, a população de alta renda também sofre impacto socioemocional provocado por problemas dentários – tanto edentados quanto desdentados”.