Cuidado: venda de “aparelhos ortodônticos piratas” preocupa pais e especialistas

Juliana Damasceno
(Pixabay)

Todos os dentistas são unânimes em dizer: uma das coisas que mais pesa no bolso, durante a universidade, é justamente a compra de materiais. Agora imagine: se para os iniciantes na profissão, uma mera espátula já é caríssima, imagine então as peças utilizadas em clínicas profissionais?

Cuidar dos dentes, de fato, nunca foi uma tarefa simples, nem barata. Que dirá os chamados materiais ortodônticos, para a confecção de aparelhos. Mas um problema bem mais grave vem chamando a atenção dos profissionais da boca: os chamados aparelhos piratas, que em pleno 2017, ainda é moda entre jovens de diferentes idades e classes sociais.

Acredite: eles existem e ainda há público! Em Campinas, há menos de um ano, vendedores ambulantes comercializavam borrachinhas, brackets, fios coloridos e até mesmo uma ferramenta instrumental específica para limpeza e manutenção! Com a instalação, a brincadeira sai em torno de 100 reais. E o mais triste: os comerciantes alegavam comprarem os materiais de fornecedores especializados.

A procura era tamanha que os vendedores tinham uma agenda lotada para “enfeitar” a boca dos interessados. Chegavam a admitir que a cor roxa era a preferida dos clientes.

O Conselho Regional de Odontologia tenta agir de forma rápida junto às Secretarias de Segurança das cidades onde correm denúncias sobre a venda ilegal dos falsos aparelhos. Mas ainda é cedo para dizer que a batalha está completamente ganha: em junho passado, a prefeitura de Osasco, cidade da região metropolitana de São Paulo, apreendeu muitos desses materiais – e afirmou em nota que continua monitorando a possibilidade de novas ocorrências.

O mais assustador é, sem dúvida, o dano irreversível que isso pode causar à saúde bucal de quem utilizar o tal enfeite. Isso sem contar o estímulo ao exercício ilegal da odontologia, para os casos dos vendedores que se a arriscam a “instalar” os materiais nos dentes dos interessados.

Ainda segundo o CRO-SP, uma série de campanhas estão sendo divulgadas para combater esta “moda”. “Aparelho Ortodôntico é coisa séria” é uma delas, com o intuito de conscientizar a população sobre os prejuízos advindos da compra e do uso indevido de aparelhos ortodônticos. Além disso, o Conselho também tem realizado audiências com a Coordenação de Vigilância Sanitária (COVISA), com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e com a Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Saúde Pública (DRCCSP) – todas as ações fazem parte do projeto “Operação Sorriso Colorido”.

Para além dos problemas legais, outras questões ainda mais sérias permeiam a discussão dos “aparelhos piratas”. Alguns materiais utilizados pelos vendedores ambulantes podem ser de nylon de vassoura e até fios de telefone – o que pode provocar infecções gravíssimas. “Toda moda tem seu tempo, seu público, mas neste caso, é importante que os pais orientem seus filhos sobre a importância de, antes de tudo, consultar um especialista, até para saber da real necessidade da utilização de um aparelho ortodôntico”, alerta Adriana Canassa, ortodontista.

Ela também faz um apelo sobre o preço que se pode pagar por intervenções inadequadas e sem o acompanhamento devido. “A boca é a nossa maior porta de entrada para um sem número de infecções. Nossos materiais são testados, aprovados, totalmente higienizados e, acima de tudo, personalizados. Há que se fazer exames, testes, radiografias para entender o procedimento correto para cada sorriso. Um “aparelho” colocado numa simples brincadeira pode custar caro demais, provocando o aumento de cáries, infecções gengivais e periodontais e, em casos mais extremos, o “entortamento” quase irreversível dos dentes e até mesmo da boca”.